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A crise financeira global
Kevin Rudd  - 03/03/2009
 

 
De tempos em tempos na história da humanidade ocorrem eventos de significância sísmica - é quando uma ortodoxia é derrubada e outra assume seu lugar. Hoje, a escala da crise financeira global demanda que reavaliemos a política econômica e a filosofia que nos trouxe até esse ponto.

 

George Soros disse que "a característica que sobressai da crise financeira atual é que ela não foi causada por algum choque externo (...) a crise foi gerada pelo próprio sistema". Soros está certo. A crise atual é a culminância de uma dominação de 30 anos da política econômica por uma ideologia de mercado livre que tem sido chamada de diversas formas: neoliberalismo, liberalismo econômico ou fundamentalismo econômico. O impulso central dessa ideologia tem sido a máxima de que a atividade governamental deveria ser contida, e em última instância substituída pelas forças de mercados. No passado, temos visto quanto as forças de mercado irrestritas levaram o capitalismo ao precipício.

 

Em vez de distribuir o risco pelo mundo, o sistema financeiro global o intensificou. A ortodoxia neoliberal pregava que os mercados financeiros globais se autocorrigiriam - era a irrestrita mão invisível das forças de mercado buscando seu próprio equilíbrio. Mas, como observou causticamente o economista Joseph Stiglitz, "a razão pela qual a mão invisível frequentemente parece ser invisível é que ela não está lá".

 

Franklin Delano Roosevelt teve de reconstruir o capitalismo americano depois da depressão, e os democratas americanos, fortemente influenciados por John Maynard Keynes, foram obrigados a reconstruir a demanda doméstica pós-guerra para implementar o Plano Marshall de reconstrução da Europa e o sistema Bretton Woods para governar o engajamento econômico internacional. Agora, a nova geração terá de refletir e reconstruir nossos sistemas econômicos nacionais e internacionais.

 

Se os governos centristas quiserem salvar o capitalismo, eles enfrentarão três desafios. O primeiro será o uso do Estado para reconstituir mercados regulados adequadamente e reconstruir a demanda doméstica e global. Com o fim do neoliberalismo, o papel do Estado tem sido reconhecido mais uma vez como fundamental. O Estado tem sido o ator primário nas respostas a três áreas bem definidas da atual crise: o resgate do sistema financeiro privado de um colapso; o provimento de estímulos diretos para a economia real por conta do colapso na demanda privada; e na criação de um regime regulatório nacional e global, no qual o governo possui suprema responsabilidade para determinar e impor as regras do sistema.

 

O segundo desafio para os sociais-democratas é não desperdiçar as vantagens do sistema. À medida em que a crise financeira global se amplia e o duro impacto nos empregos é sentido pelas famílias ao redor do mundo, haverá grande pressão para que se retorne a algum modelo no qual o Estado proverá tudo, e para que se abandone a causa dos mercados abertos e competitivos tanto nacionalmente quanto em outros países. O protecionismo já começou a ser sentido, ainda que de forma mais leve e sutil do que a brutalidade da Lei de Tarifas Smoot-Hawley, de 1930. Sutil ou não, o protecionismo é uma forma de garantir que a recessão se transforme em depressão, à medida que o colapso da demanda global é exacerbado. A contínua reivindicação filosófica de democracias sociais de legitimação política é sua capacidade de equilibrar o privado e o público, lucros e salários, o mercado e o Estado. Novamente, tal filosofia responde com clareza e convicção aos desafios de nosso tempo.

 

Um outro desafio para os governos que lidam com a crise atual é sua dimensão global sem precedentes. Os governos devem criar regras financeiras globais consistentes para prevenir que o capital vaze para áreas da economia global que apresentem menos regulação. Devemos estabelecer padrões globais mais fortes de transparência para instituições financeiras sistemicamente importantes. Devemos também construir fortes marcos de supervisão para oferecer incentivos para condutas corporativas mais responsáveis, incluindo a remuneração de executivos.

 

O mundo tem buscado uma ação governamental coordenada por meio do G-20: para auxiliar a concessão de liquidez imediata ao sistema financeiro global; para coordenar estímulos fiscais suficientes para responder à brecha no crescimento causada pela recessão global; para recriar regras globais de regulação para o futuro; para reformar as instituições públicas globais existentes - especialmente o FMI; e para conceder poderes e recursos necessários às demandas do Século XXI.

 

Elementos da governança do FMI precisam ser ajustados. É razoável supor que, se existe a expectativa de que economias que estão crescendo rapidamente, como a China, contribuam mais para instituições multilaterais como o FMI, elas também devem ganhar maior voz no processo de tomada de decisão nesses fóruns.

 

O desafio de longo prazo para os governos é direcionar os desequilíbrios que ajudaram a desestabilizar a economia global na década passada, particularmente os desequilíbrios entre grandes economias superavitárias - como a China, Japão e as nações exportadoras de petróleo - e as maiores nações deficitárias, como os Estados Unidos.

 

A magnitude da crise e seus impactos ao redor do mundo mostram que os pequenos ajustes às formas tradicionais há muito estabelecidas não serão suficientes para resolver o problema. Duas verdades inexpugnáveis já foram reveladas: os mercados financeiros nem sempre são autocorrigíveis ou autorreguláveis, e os governos (nacionais e internacionais) nunca poderão abdicar de responsabilidades sobre a manutenção da estabilidade econômica.

 

Para os governos, é muito importante que consigamos acertar o passo - não somente para salvar o sistema de mercados abertos da autodestruição, mas também retomar a confiança em mercados adequadamente regulados, visando prevenir possíveis reações imoderadas da extrema-esquerda ou da extrema-direita.

 

Os governos precisam acertar o passo porque as apostas são muito altas: há custos econômicos e sociais do desemprego de longo prazo; novamente a pobreza em expansão ameaça muitos do mundo em desenvolvimento; e há impacto de longo prazo nas estruturas de poder dentro da ordem política e estratégica internacional existente. O sucesso não é opcional. Tudo agora depende da nossa capacidade de prevalecer.

 

Kevin Rudd é primeiro-ministro da Austrália.


Escrito por SALSFI às 01h44
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