Na cerimônia militaresca na qual se anunciou a expropriação dos bens das petrolíferas estrangeiras na Bolívia baixou o caboclo aymara em Evo Morales. Na linguagem do candomblé, o presidente boliviano virou o "cavalo" para os espíritos de David Toro e de Alfredo Ovando Candia, dois de seus antecessores. Explica-se: o primeiro, em 13 de março de 1937, confiscou as concessões da Petrobras da época, a americana Standard Oil sob o argumento de que a transnacional abasteceu o exército paraguaio durante a Guerra do Chaco, entre os dois países. Alegando neutralidade, a Standard Oil ameaçou recorrer a cortes internacionais, mas acabou aceitando, como a nossa estatal, a tunga. O segundo, Candia, em 1970 repetiu o gesto, cassando a concessão da também americana Gulf Oil. Nesse caso, a justificativa foi o excesso de influência exercida pela companhia dentro do Estado boliviano.

Reza a história que, diante do poder da Gulf - que dera um helicóptero de presente ao presidente Rene Barrientos - os preparativos para a tomada dos bens e campos da empresa tiveram de ser feito em locais públicos, como cafés e restaurantes. Qualquer lugar, por mais movimentado que fosse, era mais confiável que o palácio do governo. Houve resistência, mas a encampação foi coordenada pelo comando das Forças Armadas e acabou acontecendo.

A Petrobras em 2006 era a Standard de 1937 mas ainda não havia alcançado o status da Gulf de 1969. Tanto que acabou apanhada desprevenida. Agora, seus funcionários aguardam que postos-chave no controle da exploração e da produção de gás sejam preenchidos por oficiais da polícia, das Forças Armadas e por dirigentes dos movimentos sociais, conforme a determinação de Morales (ou Toro? ou Candia?)